Dr. Marcos Britto da Silva - Ortopedia, Traumatologia e Medicina Esportiva: Dor Crônica

Dor Crônica

O que é dor crônica?
A dor crônica é uma condição clínica caracterizada pela ocorrência de dor músculo-esquelética crônica na ausência de processos inflamatórios articulares ou musculares (ausência de substrato orgânico).  Código Internacional de Doenças: CID10 - M79.7 (Fibromialgia)

Toda dor crônica é fibromialgia?
Quando surgiu o diagnóstico de dor crônica?
anormalidades do sistema nervoso central (SNC).
Quais as caracteísticas da dor crônica sem substrato orgânico?
Como é o quadro clínico da dor crônica?
Síndrome dos muitos Médicos.
Como é feito o diagnóstico da Fibromialgia?
Existe diagnóstico diferencial com fibromialgia?
Distúrbios do Sono e dor crônica.
Substancia P e Dor Crônica
Qual a relação entre doença reumática e dor crônica?
Qual a relação entre dor Crônica fenômeno de Raynaud e outras afecções reumáticas?
Qual a relação entre síndrome de fadiga crônica e dor crônica/fibromialgia?
Como é a fisiopatologia da dor crônica?
Qual a relação do Sono com as dores crônicas e a fibromialgia?
Qual a relação entre Anormalidades músculo-esqueléticas e a dor crônica?
Como é o mecanismo de dor referida na fibromialgia?
Quando desconfiar de fibromialgia?
Referencia: Kaziyama, H.H.S., Lin, T.Y., Teixeira, M.J., Piagge, F.D. Síndrome fibromiálgica. Rev. Med. (São Paulo), 80(ed. esp. pt.1):111-27,
Dr. Marcos Britto da Silva

Como veremos abaixo em teoria sim, porém particularmente não gosto do termo fibromilagia, Prefiro usar o termo Síndrome Álgica Crônica, ou simplesmente dor crônica, a fibromialgia é um tipo de dor crônica . Defino a Sindrome Álgica Crônica, como uma dor ou várias dores que duram meses ou anos, sem substrato orgânico ( casos onde os médicos não conseguem chegar a um diagnóstico de um problema no local ) que justifique as dores.
Nesses pacientes as dores não são causadas por um processo inflamatório no local da dor. A sistema de percepção da dor, pelo cérebro, é que está alterado. Ou seja o problema não está onde a dor e sentida e sim no modo como o cérebro interpreta os estímulos que recebe. Nos pacientes com dor crônica os estímulos não dolorosas podem provocar dor, 
O toque do Soutien na pele pode fazer provocar dor. 
Ficar sentado pode causar dor. 
Ficar deitado pode causar dor,
O simples ato de andar pode provocar dores fortes.
Nesse texto uso o termo fibromialgia como sinônimo de dor crônica para facilitar a leitura e a correlação com os demais dados da literatura.

A síndrome fibromiálgica (SFM) é reconhecida desde meados do século XIX. Gowers, em 1904, sugeriu o termo “fibrosite” para cognominar as síndromes dolorosas musculares regionais Várias denominações como “fibrosite”, reumatismo muscular, miofascites, mialgia, síndrome dolorosa miofascial, Dores crônicas foram adotadas. 
Yunus et al. (1981) propuseram o termo “fibromialgia” para denominar “fibrosite”, pois nesta entidade não há inflamação tecidual, apenas dor muscular difusa, relacionada a outras
Estudo multicêntrico revelou que a combinação de dor difusa, bilateral, acima e abaixo da cintura, nas extremidades e no esqueleto axial e, pelo menos, a identificação clínica desses pontos favorece o diagnósticos de fibromialgia. Esses pontos dolorosos  estão relacionados com ansiedade, depressão, palpitações, fadiga e anormalidades do sono, acordar no meio da noite, sensação de que algo está errado e você não sabe o que é. A ocorrência da Dor crônica independe de idade, nível sócio econômico e cultural dos indivíduos e frequentemente esta relacionado a um episódio de perda. Perda de um ente querido, perda do namorado, perda do emprego,  perda da vida que tinha antes, etc.

As dores musculares generalizadas ou migratórias (cada dia dói num lugar) são sintomas característicos, entretanto, a rigidez matinal, fadiga, anormalidades sensitivas, neurovegetativas, cognitivas e de qualidade do sono, palpitações, cefaleia, hipersensibilidade ao frio, hiperemia cutânea, domências e parestesias pelo corpo todo ou metade do corpo, dismenorréia, síndrome de cólon irritável, cistite de repetição, fenômeno de Raynaud, ansiedade e depressão podem  estar associados. 

O paciente passa por muitos médicos ( 5, 10, 15 médicos) e nenhum chega a um diagnóstico que explique todas as dores e sintomas num todo. Ou fica com 10 diagnosticos juntos, tem bursite no quadril , tendinite no joelho , inflamação no ombro , artrose na coluna, bico de papagaio na cervical, esporão no pé, sinovite no punho, água no joelho , etc.
O diagnóstico da Fibromialgia é clínico. Não há evidências de anormalidades laboratoriais ou radiológicas. Os critérios diagnósticos da fibromialgia sugeridas são:
• História clínica: dor cronica generalizada localizada no hemicorpo direito e esquerdo, acima e abaixo da cintura, além do eixo axial (regiões da coluna cervical, face anterior do tórax, coluna dorsal e/ou coluna lombar)
• Exame físico: ocorrência de dor à palpação digital com 4 kg/força/cm2 em áreas denominadas de pontos dolorosos (tender points

  • 1. inserção dos músculos suboccipitais na nuca;
  • 2. ligamentos dos processos transversos da quinta a sétima vertebra cervical;
  • 3. trapézio superior e lateralmente;
  • 4. músculo supra-espinhoso;
  • 5. junção do músculo peitoral com a articulação costocondral da segunda costela;
  • 6. área situada dois centímetros proximais ou distais ao epicôndilo lateral do cotovelo;
  • 7. quadrante látero-superior da região glútea, distal à espinha ilíaca;
  • 8. inserções musculares no trôcanter femoral; 
  • 9. região situada dois centímetros proximalmente à linha articular do côndilo medial do fêmur.
Um paciente com dor crônica não precisa ter todos esses sintomas descritos acima, em algumas situações dói um único local durante anos.

Sim, O diagnóstico diferencial da fibromialgia inclui as doenças autoimunes, síndrome dolorosa miofascial (SDM), as poliartrites , as polineuropatias periféricas o hipotireoidismo e a polimialgia e outras patologias reumáticas, dentre outras condições.
Várias outras afecções podem constituir comorbidades com a fibromialgia, incluindo a depressão, a síndrome do cólon irritável, as cefaléias e a síndrome da fadiga crônica.
Qual a relação entre depressão e dor crônica?
Aproximadamente 25% dos doentes com fibromialgia apresentam depressão maior e 50% história de depressão em algum período da vida. Os sintomas de depressão incluem fadiga, desânimo, falta de energia, alterações do sono e dor crônica.


O sono não reparador está clinicamente relacionado à intensidade e à duração da dor musculo esquelética.  Outros distúrbios da arquitetura do sono estão presentes e todos se relacionam com alterações bioquímicas de neurotransmissores, como a serotonina e a substância P.

A Substância P é um importante neurotransmissor nociceptivo. Há dois estudos que demostram um aumento de três vezes na quantidade de substância P em Liquido Céfalo- Raquidiano de pacientes fibromiálgicos. Esses achados, de aumento dos níveis de substância P, estão de acordo com a noção de que a sensibilização central é o início da patogênese da fibromialgia.

Algumas afecções reumatológicas como artrite reumatóide (AR), síndrome de Sjögren ou lúpus eritematoso sistêmico (LES) podem apresentar-se inicialmente como dor difusa e fadiga. Nestes casos, a fibromialgia pode coexistir.  Cerca de 12% dos doentes com Artrite Reumatoide, 7% dos doentes com osteoartrose e 22% dos casos de Lupus Eritematoso Sistêmico apresentam associadamente fibromialgia. 

Cerca de 20% a 35% dos doentes com fibromialgia apresentam fenômeno de Raynaud e secura da mucosa ocular e oral sugerindo síndrome de Sjögren. A polimialgia reumática pode apresentar-se de modo similar à fibromialgia Naquela condição os pontos dolorosos não são achados constantes, a velocidade de hemossedimentação é elevada e a evolução é favorável com uso de corticosteróides. A espondilite anquilosante se apresenta como comprometimento axial, redução da flexibilidade à movimentação da coluna toracolombossacral e alterações radiológicas típicas; a ocorrência de sinovite e alterações sistêmicas do tecido conectivo auxiliam o diagnóstico destas últimas afecções. A miosite inflamatória e as miopatias metabólicas podem ocasionar fraqueza e fadiga muscular, mas geralmente não causam dor difusa. Não ocorre fraqueza muscular significativa em casos de fibromialgia; quando presente, é devido à dor e ao desuso. As enzimas musculares são normais e o quadro histopatológico também é normal ou inespecífico em biópsias musculares de doentes com fibromialgia. Afecções metabólicas ou inflamatórias podem ocorrer em doentes com fibromialgia, incluindo o hipotireoidismo e o diabetes mellitus; entretanto, tratamento das condições não implica em regressão das manifestações da fibromialgia. 

A síndrome da fadiga crônica (SFC) apresenta similaridade com a fibromialgia. Os sintomas se instalam agudamente após doenças infecciosas e se caracterizam pela persistência de fadiga debilitante e desconforto após os exercícios. Cerca de 75% dos doentes com diagnóstico de síndrome da fadiga crônica apresenta dor.

Mecanismos neurogênicos
A fisiopatologia da dor crônica está relacionada a anormalidades no Sistema Nervoso Central. Várias evidências sugerem que a dor experienciada pelos doentes com dor crônica resulta de anormalidades no processamento sensitivo no Sistema Nervoso Central. 
Os estudos sugerem que o processamento sensitivo é anormal em doentes com fibromialgia  A Dor é o sintoma mais importante da fibromialgia. Anormalidades periféricas podem desempenhar algum papel na patogênese da fibromialgia . Os nociceptores são ativados por estímulos mecânicos, térmicos e/ou químicos teciduais. Neurotransmissores liberados retrogradamente (sP – substância P, neurocininas, PGRC) modificam a atividade da placa motora. 


Qual a relação entre a atitude positiva e negativa e a dor crônica
A atividade mental do indivíduo influencia a sensação dolorosa desagradável, pois modifica o fluxo sangüíneo no giro anterior do cíngulo. Isto significa que a atividade pré-frontal cortical (pensamento positivo ou negativo) pode influenciar a percepção da dor.  É esta a base funcional da somatização e da eficácia da psicoterapia  em doentes com dor crônica.

A depleção ( diminuição)  da serotonina ocasiona redução da duração do sono não REM ( Rapid Eye Movement ("movimento rápido dos olhos") e aumento das queixas de dores pelo corpo, depressão e uma maior percepção da dor. 
A redução da atuação de serotonina nos receptores serotoninérgicos do SNC encefálico e espinal, pode ocasionar redução na produção de hormônios do eixo hipotálamo-hipofisário- adrenal, do sono delta e da substancia P no encéfalo. O aumento da substancia P na medula espinal relaciona-se à alodínea (sensação de dor ao receber um estímulo que normalmente não provoca dore à hiperalgesia difusa ( dor mais intensa que a dor habitual para um determinado estímulo, tocar a pele poderia provocar desconforto porém provaria dor intensa por exemplo)
É possível que a hipoatividade destes neurotransmissores justifique a ocorrência de dor em casos de fibromialgia . É provável, portanto, que nos doentes com fibromialgia ocorram disfunções no SNC relacionadas à sensibilização nociceptiva e à inadequação da modulação da sensibilidade dolorosa. Parece ocorrer aumento da atividade de neurotransmissores excitatórios e deficiência da atividade dos neurotransmissores inibitórios em casos de fibromialgia; o aumento da atividade dos neurotransmissores excitatórios, especialmente da sP e a deficiência de neurotransmissores inibitórios, em especial da serotonina, poderiam implicar na percepção alterada dos estímulos nociceptivos. Portanto, déficit serotoninérgico, incluindo desrregulação serotoninérgica do eixo hipotálamo-pituitário, anormalidades no eixo hipófise-adrenal, anormalidades na atuação da sP, do peptídeo geneticamente relacionado à calcitonina e dos receptores de NMDA do SNC parecem ocorrer nos casos de fibromialgia.

O falta de condicionamento físico é característico em doentes com dor crônica e exerce papel importante na expressão dos sintomas; predispõe-nos a microtraumatismos musculares, à dor e à fadiga crônica. O metabolismo muscular é normal apesar de haver redução da oxigenação nos locais dos pontos dolorosos, provavelmente resultante da falta de condicionamento físico.

A sensibilização dos nociceptores é responsável pela dor localizada à digitopressão e contribui para o mecanismo de dor referida. A dor referida, em grande parte, é devido à sensibilização dos neurônios sensitivos da substância cinzenta do corno posterior da medula espinal que apresentam ampliação de seus campos receptivos e se tornam reativos aos estímulos nociceptivos e não nociceptivos.

Se você mudar de alguma forma a sua rotina ou viajar de férias e as dores diminuírem ou acabarem desconfie de fibromialgia


Ortopedista, Traumatologista, Médico do Esporte
Rio de Janeiro, RJ, Brasil
atualizado em 10/12/2015.

14 comentários:

  1. sinfisite pubica é a mesma coisa de pubalgia
    se nao me defina um poco ela por favor
    pois foi diagnosticado sinfisite pubica a direita e a esquerda em mim é cronico ? quanto mais o menos e o tempo de recuperaçao
    ______________________________
    Faz des do ano passado que eu tenho dores nos braço e eu tenho a impressao que é eu ficar encucado com a dor(quando eu mecho no computador) ela aparece tanto no esquerdo como no direito nas maos e ja aconteceu de dor os ombro pode ser tendinite ou alguma ler?
    lucas 17 anos Goiania Go
    maione_campiao06@hotmail.com

    ResponderExcluir
  2. Uma sinfisite púbica pode evoluir com pubalgia. A pubalgia é a dor na região da Pubis. Para saber se a dor que você sente é uma tendinite você terá que ser avaliado por um ortopedista.

    ResponderExcluir
  3. bom dia dr marcos, fiz uma eletroneuromiografia o resultado diz q lesao axonal moderada nos miotomos c8 t1 com sinal de denervaçao ativa . o que isso quwe dize, obgd

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O axonio é a braço do nervo, e leva o impulso nervoso até o músculo, esse exame sugere que os impulsos nervosos estão com dificuldade de chegar até ao braço/mão num grau moderado

      Excluir
  4. Boa Tarde Dr, sinto dores por todo o corpo desde os meus 15 anos, nunca descobri o porque, os médicos pelos quais eu passei sempre associaram essas dores a crises de depressão só que hoje eu estou com 25 anos e depois que tive minha primeira gestação no ano de 2009 as dores pioraram muito a ponto de eu não conseguir nem segurar minha filha desde então estou a procura de um médico que descubra o que eu tenho já fiz vários exames e nada já passei por ortopedidas, neurologistas, endocrinologistas e nada acusa nos exames, será que isso pode ser fibromialgia?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A descrição parece realmente uma dor crônica.

      Excluir
  5. Tenho dor crônica nas duas mãos. Principalmente direita, ja que sou destra. A dor varia entre algumas regios do punho e braço. Há 5 anos passei por medicos, exames e remédios, sem diagnostico e sem sucesso nos tratamentos. Meu problema pode ser fibromialgia?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Minha opinião esta no segundo parágrafo do texto acima.

      Excluir
  6. Tenho dores muito intensas nas costas já percebi que quando fico tensa ou triste ela aparece com mais intensidade. Já fiz vários exames e nada é diagnósticado. .. o que é faz desanimar ainda mais antes tinha crises que passavam até dois meses sem dor agora todo mês e da uma crise muito forte já tomei medicações muito fortes pra aliviar a dor mais nada parece resolver. Na madrugada se perco o sono não consigo mais dormir parece o sono ter se dispersado, me sinto sempre cansada e exausta mesmo sem ter feito nada. Isso pode ser fibromialgia?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. As dores crônicas são abordadas de modo multi-disciplicar, o fato das das dores piorarem com as emoções pode estar relacionada a dor crônica, porém o diagnóstico deve ser feito por um médico após um exame físico detalhado.

      Excluir
  7. Boa noite, Dr! Meu esposo sofre com dores crônicas há 7 anos. Com o tempo as dores aumentaram, e muito. Ele já percorreu todo interior do RS, tentou vários tratamentos, remédios e médicos, tudo o que ele sente está descrito acima. Gostaria de saber se há alguma possibilidade de iniciar o tratamento com Sr., somos do interior do Rio Grande do Sul e, infelizmente não teriamos como ir todos os meses por conta do cansaço físico principalmente. Porém, poderíamos ir na primeira consulta para sabermos como proceder e, então, iniciarmos o tratamento.
    Obrigado desde já.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Andréa bom dia, sugiro procurar tratamento próximo a sua residência, acho complicado viajar tanto para realizar um tratamento não operatório. Procure um clínica ou médico com especialização em tratamento de dores crônicas no seu Estado. Acho que será mais produtivo, menos dispendioso e menos trabalhoso.

      Excluir
  8. Dr marcos bom dia!
    Há mais de 7 anos descobri q tenho fibromialgia. Sinto dor em todo corpo. E agora alguns sintomas tem se agravado. Gostaria de Marcar um consulta com o senhor. Atende Unimed? Q tel eu ligo?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O telefone está disponível nessa página acima.
      Aba Consultório.

      Excluir

ANTES DE POSTAR SEU COMENTÁRIO Leia SOBRE O BLOG

http://www.marcosbritto.com/p/blog-page.html

Somente os seguidores do Blog poderão postar comentários.
Não realizamos consultas pela internet!

Postagens mais lidas na última semana